Resolução sobre Conjuntura e o Movimento Popular

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Proposta de Resolução sobre Conjuntura e o Movimento Popular para o 4º Congresso da CSP Conlutas: Se os de cima não nos deixam viver, organizemos a resistência em baixo para derrubar os de cima!

Considerando que:

Nesse primeiro ano de governo Bolsonaro ficou evidente a sua natureza e a dimensão dos ataques direcionados à classe trabalhadora e aos seus setores mais explorados e oprimidos, como aqueles que reproduzem sua vida nas ocupações, nas periferias, nas terras indígenas, camponesas e quilombolas.

Esse governo é, também, resultado de um momento histórico em que governos que chamamos de conciliação de classe, como o PT, PC do B, diziam que era possível governar “para todos” e se aliaram aos patrões, garantindo o interesse deles às nossas custas. Com isso, as condições de vida foram piorando, conforme se acirrou a crise internacional e a classe trabalhadora foi percebendo que esses governos não resolveriam seus problemas, e que fizeram os mesmos tipos de ataque, já que governando para os de cima.

Ainda que no momento de crescimento econômico, as migalhas que sobravam da mesa farta que serviram aos banqueiros, empresários, latifundiários, tenham nos sido servidas, melhorando, assim, o acesso a algumas coisas que não tínhamos antes, essa alguma melhora na condição de vida, foi por nos tornarmos consumidores com um pouco mais de acesso que antes, e não por termos mudado estruturalmente nossa situação. As desigualdades na concentração de terra e renda, a violência e o genocídio contra nosso povo, só foram aumentando, porque são parte do funcionamento do sistema, que não foi afetado estruturalmente em nada. Nenhum desses governos quis enfrentar os de cima!

Isso somente demonstra que não é possível avançar nas nossas necessidades se não existir uma total independência entre os debaixo e os de cima, entre o trabalhador, e o patrão e os governos.

Considerando os ataques de Bolsonaro e dos governos à nossa classe…

Desde a eleição de Bolsonaro e seus aliados nos Estados, havíamos avaliado que, possivelmente, os setores populares seriam os primeiros a serem atacados pelo novo governo. Foi ganhar a eleição que se intensificaram ataques de jagunços aos territórios onde estão os povos tradicionais e aumentou o feminicídio, por exemplo.

Mas o brutal significado da destruição da previdência, em perspectiva de vários anos pela frente, atinge todo o conjunto da classe trabalhadora, e deve fazer aumentar a miséria e a piora nas condições de vida, especialmente, dos setores mais vulneráveis que vivem dos benefícios do sistema de proteção social que está sendo desmontado. A nova reforma trabalhista mascarada de “MP da liberdade econômica” vem pra precarizar ainda mais o trabalho, através da superexploração, piorando as condições de emprego de todo mundo. Os ataques direcionados ao setor da educação pública (corte de verbas, privatização das universidades – o chamado “Future-se”), os ataques à organização dos sindicatos, a liberação indiscriminada de agrotóxicos, o aumento do desmatamento na Amazônia, além das cotidianas declarações racistas, misóginas, lgbttfóbicas, xenófobas, e contra quem luta, somente confirmam o caráter e a natureza desse governo, declaradamente anti-povo.

Saber contra quem se luta é um primeiro passo para vencer o inimigo.

Se antes os governos diziam governar “para todos”, se apresentando para o movimento de massas como mediadores entre o Estado e os interesses econômicos da burguesia, enquanto na verdade nos atacava, agora temos um governo que não tem a menor cerimônia em dizer que é contra as trabalhadoras e trabalhadores, os lgbtts, as mulheres, os povos originários, os sem-terra, os sem-teto, os imigrantes, a natureza, e os movimentos e organizações que fazem luta.

Trata-se de um novo governo, que tem intensificado e aprofundado as mazelas abertas pelo PT e seus aliados, bem como seus antecessores, em todos os seus aspectos. A crise econômica exige respostas cada vez mais duras, que arranquem ainda mais do povo para garantir o lucro dos de cima, e para fazer isso encontra amparo em governos como o de Bolsonaro, mas também Trump nos Estados Unidos e outros governos de ultradireita pelo mundo.

A situação da vida da nossa classe está piorando cada vez mais e há tempos que as mobilizações (organizadas e/ou espontâneas) que vem pipocando desde junho de 2013, mostram que cada vez mais há uma descrença nos governos, nos congressos, na Justiça, e nas instituições. Sem conseguir visualizar a possibilidade de uma alternativa radical, muita gente caiu na ilusão de que Bolsonaro poderia romper com como as coisas têm sido até agora, em favor do povo.

Mas muita gente já está vendo que esse governo que mostrava ser “radical”, “contra tudo isso aí” e “diferente” não parece apresentar um futuro diferente para as nossas vidas. Mas também, a ilusão no “velho” já se desgastou e principalmente nós, que acreditamos que só uma revolução pode mudar a realidade que vivemos, não podemos engrossar a ideia da volta do passado como única alternativa. Só poderemos nos construir como uma referência real para o povo, se passarmos longe da ideia de que nas próximas eleições as necessidades de nossa classe poderão “um dia quem sabe” ser atendidas. É parte fundamental de nossa tarefa, fortalecer, mais ainda diante dessa crise, a concepção de que a tarefa de construção da sociedade em outros patamares não está com os de cima, mas nas mãos dos indígenas, operários, sem teto, sem-terra, quilombolas, trabalhadores do campo, jovens, mulheres e homens explorados e oprimidos. E que é possível, necessário e urgente!

Considerando a necessidade de reorganizar os debaixo pra derrubar os de cima…

Os ataques do governo Bolsonaro expressam um novo grau de intensidade contra os debaixo. Pois, se antes o que se percebia era o “cafezinho” da recepção de algum gabinete controlado pelo PT e seus aliados para enrolar o povo arrumando algum “projeto” que desarmasse a luta direta (e que dificilmente efetivamente saía do papel), ou só esperar o movimento “virar as costas” pra “sentar o pau” com despejos com os quais eram responsáveis por autorizar ou por não impedir que acontecessem, hoje, o que se apresenta é truculência frontal e direta, “sem massagem”, nem cinismo.

Se o inimigo atua de outro jeito, mudam-se as tarefas para enfrenta-lo.

A perspectiva de intensificação da crise econômica, política e social, mesmo com vitórias parciais dos de cima, não devem ofuscar nossa visão para a possibilidade de fortalecimento da reação dos setores mais explorados. Da juventude da periferia, dos sem trabalho e renda, dos sem moradia, dos expulsos da terra, dos trabalhadores organizados que tem perdido seus direitos históricos…

A reação dos debaixo é uma necessidade de sobrevivência e devemos estar abertos às suas várias formas de organização para a resistência, sabendo que as “formas” tradicionais da esquerda são associadas com o “velho” que não queremos que se repita, e que o povo já não acredita mais.

Por isso, nossa Central deve se preparar para realmente conseguir ser um ancoradouro dessas lutas. Consideramos que avançamos, dentro dos nossos limites, nesse sentido. Mas a hora é de dar um passo à frente. Mesmo entre os movimentos populares há todo um debate sobre os rumos que irão tomar as lutas de nossa classe. Estamos ao lado daqueles que apostam e incentivam as lutas diretas e ajudam a organiza-las, como recentemente fizemos em uma primeira ocupação urbana durante o governo Bolsonaro.

Nosso acerto foi não nos apoiarmos nos acordos com os governos de conciliação de classe e mantermos nossa independência, nos apoiando no povo, com toda sua disposição de luta e capacidade de construir respostas para os problemas que enfrentamos. Reivindicamos nossa trajetória e preparamos os passos que serão necessários, como o aprofundamento da autodefesa coletiva e a organização para embates ainda maiores.

Alguns desafios e tarefas que estão colocadas:

A partir da perspectiva de quem olha o mundo pela sombra de uma lona preta, ou de quem olha o mundo pelo olho dos mais lascados entre os de baixo, propomos algumas iniciativas como:

Resoluções para o Congresso:

  1. Que aprofundemos a concepção de nossa Central, com seu caráter sindical e popular, com a garantia de espaços em todas as coordenações que expressem a integração desses setores;
  2. Que a Central garanta a realização de um Encontro nacional dos setores populares que desenvolvem lutas territoriais para o próximo ano ou até o próximo Congresso, de modo a socializar as experiências e avançar no debate de nossa organização;
  3. Que incorporemos o tema da linguagem “popular”, como vídeos, cartilhas, etc., para os materiais da Central, de modo a ampliar o diálogo com a base social dos setores mais explorados;

Viva a luta independente e internacionalista dos trabalhadores! Viva a CSP-Conlutas!

Viva nosso Congresso! Luta Popular